Introdução: O Fim do “Mito do Sintoma”
Existe uma crença profundamente enraizada na nossa cultura, repetida à exaustão por revistas de relacionamento, terapeutas de casais mais conservadores e pela sabedoria popular: a traição é sempre o sintoma de um relacionamento doente. A lógica parece infalível. Afinal, se você tem tudo o que precisa em casa — amor, respeito, sexo satisfatório, um bom companheiro —, por que iria procurar algo fora? Se alguém “pulou a cerca”, argumenta o senso comum, é porque algo estava faltando no pasto.
No entanto, no seu livro revolucionário Casos e Casos – Repensando a infidelidade, a psicoterapeuta Esther Perel implode essa teoria. Através de décadas de experiência clínica, ela deparou-se repetidas vezes com um cenário que desafiava a lógica tradicional: homens e mulheres que amavam profundamente os seus parceiros, que tinham casamentos estáveis, famílias estruturadas e uma vida sexual ativa, mas que, ainda assim, cruzaram a linha da fidelidade.
Como explicar o inexplicável? Por que colocar tudo em risco quando não se quer sair do casamento? A resposta a este paradoxo obriga-nos a olhar para a infidelidade não apenas como uma traição ao outro, mas como uma jornada complexa, muitas vezes egoísta e tortuosa, de autodescoberta.
1. A Falácia da Panaceia Conjugal
O “mito do sintoma” pressupõe que o casamento deve ser uma espécie de panaceia para todas as nossas necessidades. Como vimos no [Artigo 2: O Trauma do Adultério], a modernidade colocou um peso esmagador sobre os ombros do cônjuge. Ele deve ser o nosso amante, o nosso melhor amigo, o nosso sócio financeiro e o nosso co-terapeuta.
Quando adotamos a visão de que o casamento perfeito anula completamente o desejo por outras pessoas, caímos numa armadilha cruel. Se ocorre uma traição, a teoria do sintoma obriga-nos a procurar um defeito. O parceiro traído pensa: “O que fiz de errado? Estive ausente? Engordei? Fui frio?” e o parceiro que traiu tenta justificar o injustificável apontando pequenas falhas no relacionamento.
Mas Perel adverte: procurar as razões de um caso extraconjugal exclusivamente dentro do casamento é um erro. Muitas vezes, a traição não tem nada a ver com o parceiro traído. Não é um reflexo de quem o outro é, ou do que o relacionamento falhou em ser. É um reflexo de uma crise interna daquele que trai.
2. Não Procuramos Outra Pessoa, Procuramos Outro “Eu”
Quando as pessoas que traem são inquiridas sobre os seus motivos (e quando estão num ambiente seguro, longe da necessidade de se defenderem moralmente), as palavras que surgem não costumam ser “sexo”, “orgasmo” ou “vingança”. As palavras que dominam a narrativa são vitalidade, liberdade, autonomia e renascimento.
Num casamento longo e feliz, as identidades fundem-se e consolidam-se. Tornamo-nos “a mãe responsável”, “o marido provedor”, “a esposa ponderada”. Esses papéis são essenciais para manter o comboio da vida familiar nos carris. Contudo, essa mesma estabilidade pode ser sufocante.
Perel cunhou uma frase que se tornou o pilar desta nova perspetiva: “Muitas vezes, não é de quem somos que queremos afastar-nos, mas da pessoa em que nos tornámos.”.
A amante ou o amante não é necessariamente mais bonito, mais jovem ou mais inteligente que o parceiro oficial. O verdadeiro íman do caso extraconjugal é a nova versão de si mesmo que a pessoa consegue ser com aquele terceiro. No caso extraconjugal, o marido exausto pelas contas não é um pagador de boletos; é o “Dom Juan” sedutor. A mãe mergulhada em fraldas não é “a mãe do Joãozinho”; é uma mulher desejada, misteriosa, sem amarras. O caso funciona como um espelho mágico que devolve uma imagem perdida ou nunca antes explorada.
3. O Antídoto Para o Torpor: A Morte e o Desejo
A infidelidade raramente tem como catalisador a busca pura e simples por sexo. O verdadeiro motor, argumenta Esther Perel, é o desejo de vitalidade. É um antídoto para o torpor, para a sensação de estar “morto em vida”.
Não é coincidência que muitos casos extraconjugais comecem no seguimento de grandes perdas ou marcos de envelhecimento: a morte de um dos pais, a partida do último filho de casa (síndrome do ninho vazio), um diagnóstico médico assustador, ou o virar de uma década (os famosos 40 ou 50 anos). A proximidade com a mortalidade acende um alarme existencial. A pessoa olha para a sua vida previsível e confortável e pergunta: “É só isto? Não vai haver mais nenhuma surpresa? Mais nenhum primeiro beijo? Nenhuma outra paixão até eu morrer?”
O adultério, com toda a sua intensidade, risco e segredo (elementos que discutimos no [Artigo 1: A Nova Definição de Traição]), atua como um desfibrilador elétrico para um coração emocionalmente adormecido. Faz com que a pessoa se sinta perigosamente viva.
4. O Fator da Transgressão: O Apelo do Proibido
Crescemos numa cultura de regras. Desde a infância, somos treinados para ser bons meninos e boas meninas. O casamento, sendo a instituição máxima da ordem social, é regido por contratos e limites rigorosos.
Para algumas pessoas, mesmo as mais bem-comportadas e moralmente retas, a atração da transgressão é inebriante. O psicanalista Adam Phillips sugere que a infidelidade pode ser um retrocesso à adolescência — uma rebelião contra a autoridade e as regras esmagadoras da vida adulta. Cruzar a fronteira do proibido oferece uma ilusão inebriante de liberdade suprema e autonomia total. É o ato de dizer: “Eu não pertenço inteiramente a ninguém, nem mesmo à pessoa que mais amo.”
A clandestinidade e o risco de ser apanhado libertam adrenalina e dopamina em quantidades massivas. É por isso que, de forma trágica, se um caso é descoberto e os dois amantes deixam as suas respetivas famílias para ficarem juntos, a paixão avassaladora frequentemente evapora. O que mantinha o fogo não era apenas o amor pelo amante, mas o facto de ser um segredo roubado à realidade.
5. O Luto das “Vidas Não Vividas”
A escolha da monogamia exige um sacrifício formidável que raramente discutimos abertamente. Quando você diz “sim” a uma pessoa no altar, está simultaneamente a dizer “não” a todas as outras centenas de milhares de pessoas com quem poderia ter construído uma vida. A monogamia obriga ao luto das vidas não vividas.
Para pessoas felizes, o casamento é o percurso principal e amado. Contudo, o caso extraconjugal pode representar uma visita rápida a um universo paralelo. “Como seria a minha vida se eu tivesse ficado com o meu amor da juventude?” ou “Como seria a minha vida se eu fosse uma pessoa aventureira em vez de planeada?”. O caso permite habitar, mesmo que temporariamente, uma realidade alternativa, sem a intenção real de destruir a casa principal.
É um erro crasso e devastador pensar que este “passeio” justifica a dor causada, mas entender esta motivação muda completamente o paradigma do tratamento terapêutico após a descoberta.
Conclusão: A Dualidade Humana e a Dor Residual
Entender que pessoas felizes traem não significa perdoar ou justificar o ato. A dor descrita no trauma da traição é real, válida e destrutiva. Perel é muito clara: o facto de o traidor estar envolvido numa viagem existencial e numa crise de meia-idade não atenua a crueldade do que é feito ao cônjuge traído.
No entanto, abandonar o “mito do sintoma” é libertador para ambas as partes. Para o parceiro traído, tira-lhe o peso da culpa (“Não foi culpa minha, não foi porque eu era insuficiente”). Para o parceiro que traiu, obriga-o a enfrentar a sua própria sombra moral e existencial, em vez de se esconder atrás de pequenas queixas sobre a rotina conjugal.
O desejo humano é anárquico, contraditório e raramente obedece aos nossos melhores propósitos morais. O casamento é uma estrutura que tenta conter essa anarquia através do amor, do respeito e da escolha diária. Quando as paredes dessa estrutura racham, em vez de assumirmos imediatamente que o edifício estava podre, talvez devêssemos perguntar: que ventos sopravam na alma daquele que abriu a fresta?
Compreender estes ventos sombrios é o passo essencial para o que analisaremos a seguir: como a própria dinâmica do ciúme e do medo pode, incrivelmente, ser o catalisador do desejo dentro do próprio casamento.
Links Internos (Silo)
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Referências Bibliográficas
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PEREL, Esther. Casos e casos: Repensando a infidelidade. Tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018..
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MITCHELL, Stephen A. Can Love Last? The Fate of Romance Over Time. W. W. Norton & Company, 2002. (Obra basilar sobre o paradoxo do romance e da estabilidade, referenciada no pensamento de Perel).
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PHILLIPS, Adam. Monogamy. Faber & Faber, 1996. (Análise sobre as restrições culturais e psicanalíticas da monogamia).
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